quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Bolsas de estudo de mestrado e doutorado permitem que profissionais deixem o mercado de trabalho para viver de estudar

Eles são pagos para se dedicar aos estudos


Bolsas de estudo de mestrado e doutorado permitem que profissionais deixem o mercado de trabalho para viver de estudar

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo


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No começo de 2008, a professora Tatiana Calsavara teve dois grandes êxitos profissionais. Passou em um concurso municipal para se tornar docente efetiva e ganhou uma bolsa para fazer um doutorado em Educação na Universidade de São Paulo (USP). O problema é que, por contrato, só poderia aceitar um dos dois. Depois de analisar as possibilidades, optou pelo que geraria mais renda: estudar. Com o aumento dos valores e do número de bolsas de pós-graduação, histórias assim tornam-se cada vez mais comuns.

Tatiana preferiu bolsa de doutorado na USP a emprego, de olho em renda futura

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Cietífico e Tecnológico (CNPq) criou para 2011 mais 2 mil bolsas de mestrado e doutorado, elevando o total distribuído em todo o País para 21,7 mil. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) informa que beneficia cerca de 50 mil pós-graduandos por ano com auxílio mensal. São Paulo conta também com 6 mil bolsas para pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Embora ainda longe da média dos salários da maioria dos profissionais com ensino superior, as bolsas de estudo hoje vão de R$ 1.200 para mestrado a R$ 5 mil para o pós-doutorado (veja tabela por agência financiadora abaixo) o que já torna possível viver de estudar. “É apertado, mas compensa”, explica Tatiana, que fez a escolha de olho no futuro. “Depois disso, vou poder me inscrever em concursos para professor de universidade pública, o que garante uma renda bem maior do que dando aula no ensino básico.”

Tatiana recebe da Fapesp R$ 2,5 mil mensais. O contrato é de três anos ou até o final de seu doutorado sobre educadores anarquistas previsto para 2012. Quando pensa em dinheiro, ela soma ao valor as vantagens que a vida acadêmica traz. Na USP, faz esporte e aulas de francês de graça e conseguiu vaga para a filha de seis anos na creche da instituição. “Venho para cá no horário da entrada dela, às 8h, passo o dia envolvida com minha pesquisa ou atividades relacionadas e só saio às 16h15 em tempo de buscá-la”, conta.



Valores das Bolsas Capes CNPq Fapesp

Mestrado R$ 1.200 R$ 1.200 R$ 1.392 a  R$ 1.478*

Doutorado R$ 1.800 R$ 1.800 R$ 2.053 a R$ 2541*

Pós-doutorado R$ 3.300 R$ 3.200 a R$ 4.000* R$ 5.024

* valores variam conforme experiência do aluno


Computador, livros e viagens

A bolsa é para o sustento do pós-graduando. Outros custos de estudo dos bolsistas são cobertos por uma reserva técnica. A Fapesp paga este adicional diretamente ao estudante ao longo do curso. Tatiana, por exemplo, já recebeu algumas parcelas em conta corrente e usou para viajar ao México e à Fortaleza (CE) pela universidade, comprar livros e um notebook. “A única exigência é que tudo seja doado à instituição ao final da pesquisa”, diz.

O CNPq e a Capes deixam a verba à disposição do orientador dos estudantes, que deve administrar o dinheiro para um grupo. Flavia Alves de Souza, também doutoranda da Faculdade de Educação da USP, mas com bolsa do Conselho Nacional, conta que tem apenas parte dos gastos com congressos e livros pagos. “Isso depende de quantos interessados há em cada evento, nós fazemos o pedido e, às vezes, a cobertura financeira é total, em outras parcial”, explica.

A pedagoga recebe para estudar desde a graduação na Universidade Estadual do Ceará. Depois do mestrado, conseguiu um emprego como formadora de professores, mas logo quis voltar à pesquisa. “Me inscrevi para o doutorado na USP e, assim que passei, me desliguei do trabalho, mas fiquei quase um ano sem renda até conseguir a bolsa”, lembra.

Cada instituição credenciada pelas agências tem uma cota de bolsas. Quando uma faculdade distribui todas, precisa esperar que um aluno conclua seus estudos para solicitar novos benefícios. “Eu fiquei na fila por um tempo, é o tipo de coisa que dificulta para quem depende 100% disso”, conta Flávia.


Regras mudaram em 2010

Via de regra, bolsistas não podem ter vínculo empregatício. A intenção é que o estudante se dedique totalmente à pesquisa. Em 2010, no entanto, os dois órgãos financiadores nacionais publicaram portaria que flexibiliza o trabalho paralelo. Passaram a ser aceitos empregos ou colaborações que estejam relacionados ao estudo, o que em geral significa dar aulas.


Juliana Dominguez foi uma das primeiras a conseguir bolsa e manter vínculo empregatício

A socióloga Juliana Arantes Dominguez, doutoranda em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi uma das primeiras a aproveitar a mudança. Natural de Jundiaí, no interior do Estado de São Paulo, ela conta que sempre precisou trabalhar para pagar os estudos. Durante a graduação, manteve um emprego. Para o mestrado, foi morar em uma república com seis amigas. Depois, conseguiu um trabalho como coordenadora de projetos sociais, mas não queria se afastar da academia.

Em 2010, ela prestou a prova para o doutorado e, sabendo que uma bolsa seria insuficiente para manter seu custo de vida, decidiu não solicitar o benefício e continuar trabalhando. “Como a ideia sempre foi continuar estudando, arrumei trabalhos como professora tanto universitária quanto de ensino médio”, conta. Quando a legislação mudou, em junho, ela imediatamente conversou com a orientadora sobre acumular trabalho e estudo. Acabou ficando com as aulas no ensino médio e uma bolsa da Capes.

“Acho que quando é possível só estudar, melhor. Isso vale principalmente em casos como o meu que tenho a graduação em uma área e faço doutorado em outra. Estou aprendendo muita coisa nova”, diz, contando que sua rotina inclui aulas três vezes por semana além de cerca de quatro horas diárias de leitura individual.


Para Juliana, as bolsas são uma grande oportunidade para quem enxerga nos estudos uma forma de se se tornar mais competitivo. “As bolsas não são competitivas com o mercado de trabalho, mas nos dão uma chance de se diferenciar nele.”


Como se candidatar a uma bolsa?



As agências de fomento à pesquisa distribuem as bolsas entre as instituições, conforme o conceito e o número de alunos de cada programa. A cada ano, também há uma revisão das áreas que receberão maior investimento conforme a demanda.

A solicitação de bolsas é feita pelo orientador ou o departamento. É possível solicitar antes do início das aulas, mas apenas após a devida aprovação do projeto pela instituição.


VEJA A AVALIAÇÃO DA CAPES DE TODO OS MESTRADOS E DOUTORADOS DO PAÍS

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