quinta-feira, 29 de julho de 2010

Bullying - brincadeira ou violência na escola?

O comportamento violento que por diversas vezes é confundido pelos professores, pais e colegas de classe como uma brincadeira de mau gosto ou indisciplina recebe o nome de bullying.

>> Por Instituto Recriando, organização da Rede ANDI Brasil em Sergipe

Uma brincadeira que é preciso ser levada a sério



Pesquisa revela que 30,8% dos alunos de 1453 escolas públicas e privadas de todas as capitais brasileiras já foram vítimas do Bullying

Um lugar seguro, saudável onde prevaleça a alegria, a solidariedade, o respeito às diferenças e que ofereça condições necessárias para o pleno desenvolvimento físico, intelectual e social de crianças e adolescentes. Esse deveria ser o cenário adequado de uma instituição de ensino. Porém, à margem do aprendizado e da amizade, as agressões vêem se tornando práticas cada vez mais freqüentes entre os estudantes nos ambientes relacionados à escola.

A Pesquisa Nacional da Saúde Escolar (Pense), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), comprova esse panorama cada vez mais visível nas instituições de ensino de todo país. Realizado em 2009, o estudo constatou que quase um terço dos alunos entrevistados (30,8%) em 1.453 escolas públicas e privadas de todas as capitais brasileiras e do Distrito Federal já foram vítimas de agressões na escola. Os dados colhidos pela pesquisa mostram ainda que a ocorrência foi verificada em maior proporção entre estudantes de escolas privadas (35,9%) e do sexo masculino (32,6%). Para aumentar a gravidade do problema, a pesquisa aponta que muitas dessas vítimas sofrem agressões repetidas vezes, o que pode ser configurado como uma forma de perseguição.

Esse comportamento violento que por diversas vezes é confundido pelos professores, pais e colegas de classe como uma brincadeira de mau gosto ou indisciplina recebe o nome de bullying. A palavra de origem inglesa compreende comportamentos com diversos níveis de violência que vão desde chateações inoportunas, como colocar apelidos, discriminar e ignorar os colegas, até ações altamente agressivas, sob formas verbal ou física, que ocorrem intencionalmente e sem motivação aparente, provocadas por alguns alunos direcionadas a outros da mesma escola ou sala de aula.

O bullying é um problema mundial que não está restrito a um determinado tipo de instituição de ensino. Porém, a pré-disposição a esse tipo de violência é maior em escolas cujo nível intelectual das equipes é baixo, os padrões de comportamento não são estabelecidos, e nas que apresentam métodos inconsistentes de disciplina, sistema de organização deficiente, acompanhamento inadequado dos alunos e falta de consciência das próprias crianças e adolescentes como indivíduos. As condições familiares também tornam os meninos e meninas mais propensos a desenvolverem agressividade nos ambientes escolares, a exemplo da falta de afetividade e envolvimento entre pais e filhos, a ausência de limites no que diz respeito à permissividade e afirmação de poder dos pais sobre os filhos, demonstrados através de explosões emocionais e práticas de violência.

Principais alvos - Nem sempre é fácil perceber quando uma criança ou adolescente é vítima do bullying. Na maioria dos casos, as vítimas preferem não revelar que estão sendo agredidas por medo de denunciar seus agressores ou por receio de não serem ouvidas. Por isso é muito importante que tanto a família quanto a escola estejam atentas aos sinais apresentados por esses meninos e meninas.


Os indivíduos mais atingidos pelos comportamentos agressivos geralmente são pouco sociáveis, inseguros quanto à adequação a determinados grupos existentes na escola e apresentam a auto-estima tão baixa a ponto de acreditarem que são merecedores dos maus-tratos sofridos. Na maioria das vezes eles têm poucos amigos, são quietos e sua passividade não permite que eles reajam efetivamente às agressões. Outros fatores que podem contribuir para que uma pessoa se torne vítima do bullying estão relacionados às diferenças nos padrões de beleza, de desempenho intelectual, condições financeiras, maneira de se vestir e se relacionar e até problemas de saúde. Nesse sentido, alguns especialistas acreditam que a cultura divulgada pelos meios de comunicação é uma incentivadora desse tipo de comportamento ao utilizar como alvo de críticas e zombarias alguns grupos de minorias que coincidem com o público alvo do bullying.

Conseqüências - As seqüelas deixadas pelo comportamento violento e anti-social entre estudantes podem ser extremamente danosas à vida dessas crianças e adolescentes. As vítimas do bullying têm o seu desenvolvimento afetado e as relações interpessoais e emocionais são abaladas. Elas desenvolvem o medo, o pânico, distúrbios psicossomáticos e demonstram muita tristeza. Somados a isso, estão os sintomas físicos como alterações do sono, dores de cabeça e no estômago.

A partir de um determinado momento, os efeitos se agravam e essas crianças e adolescentes tentam até evitar a escola e o convívio social como forma de se protegerem das agressões a que acreditam sempre estar sujeitas. Como conseqüência, elas passam a ter baixo desempenho escolar, desejo de trocar de colégio e abandonar os estudos. Alguns se sentem tão oprimidos que passam a manifestar comportamentos agressivos e desejo de vingança ou entram em depressão e, em casos mais extremos, chegam a cometer o suicídio. Além de imediatas, as consequências podem se estender por toda vida, quando as vítimas atingem a idade adulta tendo dificuldades para se relacionar e desempenhar suas funções no ambiente de trabalho.

Mas os prejuízos não se restringem apenas as vítimas do bullying. Os agressores, que na maioria das vezes são aqueles que por algum motivo necessitam ser o centro das atenções dos demais colegas, acabam se envolvendo, ainda na época da escola, em atos criminosos. Mais tarde, passam a sofrer rejeições e repressões, pois ao chegarem a outros níveis escolares, quando o bullying não é tolerado na mesma proporção, acabam ficando deslocados. Outro aspecto que é importante ressaltar é que esses comportamentos anti-sociais podem ser levados para a vida adulta e se manifestarem através de atitudes agressivas no seio familiar ou no ambiente de trabalho.

Como combater - Considerar que o bullying não é uma característica normal no processo de desenvolvimento de uma criança ou adolescente, mas sim um indicador de risco para a adoção de uma postura violenta é o primeiro passo para combater essa prática desastrosa no ambiente escolar. Transmitir segurança suficiente para que as vítimas desse tipo de comportamento tornem as instituições de ensino e suas famílias cientes do que está acontecendo também é uma maneira de evitar que esses atos tenham continuidade.


Considerando-se que o bullying é um fenômeno complexo, é necessário destacar a importância da participação da família, da comunidade escolar e da sociedade em geral para alcançar a solução desse problema, que atinge a cada dia proporções maiores. A retomada de uma relação mais afetiva e compreensiva entre pais e filhos continua sendo uma alternativa eficaz nesse sentido. No caso da escola, algumas atitudes simples como a inserção e discussão de temas transversais de forma continuada podem ajudar a solucionar o problema.

Iniciativas próprias, que geralmente partem de professores preocupados com essa situação, já começaram a ser desenvolvidas em diversos cantos do Brasil. Em Dourados (MS), a professora Cristina Pires Dias desenvolveu, juntamente com os pais e a equipe pedagógica da Escola Municipal Neil Fioravante, o projeto “Unidos no Combate à Prática do Bullying”. Durante os anos 2008 e 2009, os alunos da instituição puderam esclarecer dúvidas sobre o assunto, confeccionar cartazes para divulgar e conscientizar a comunidade acerca do problema e criar uma pauta de reivindicações contra a violência que foi encaminhada para a Secretaria de Educação do Município.


Outro exemplo de trabalho voltado para o combate ao bullying ocorreu na cidade de São José do Rio Preto (SP), especificamente na escola Municipal Luiz Jacob. Cerca de 450 alunos tiveram a oportunidade de participar do Programa antibullying “Educar para a Paz”. Desenvolvido de junho de 2002 a julho de 2004 do ano passado, o programa foi uma iniciativa da educadora e pesquisadora da temática Cleo Fante e transformou-se em modelo para inúmeras escolas brasileiras. O “Educar para a paz” é um programa viável, flexível, de fácil assimilação e adaptação a cada realidade escolar. Suas estratégias e técnicas psicopedagógicas de intervenção preventiva têm se mostrado eficazes na reeducação do comportamento Bullying.

Como forma de legitimar esses programas de combate ao bullying, o poder público tem dado sua parcela de contribuição a fim de proteger a população infanto-juvenil de atitudes agressivas e anti-sociais. Em 2009, foram criados dois Projetos de Lei (PL) que instituem os programas antibullying nas escolas. O PL 447/07, do deputado estadual Joares Ponticelli, de Santa Catarina, e o PL 5369/09, do deputado federal Vieira da Cunha, do Rio Grande do Sul, são destinados a identificar as crianças e adolescentes vítimas dessa prática nas escolas e na sociedade, além de estabelecer mecanismos de prevenção.


Cyberbullying - Na internet, a prática de agressões entre crianças e adolescentes é chamada de cyberbullying ou bullying virtual. Ela é caracterizada quando sites ou redes de relacionamentos da WEB, a exemplo do Orkut e do Twitter, são usados para incitar a violência, adulterar fotos e dados pessoais com o intuito de provocar constrangimento psicossocial. Os avanços tecnológicos e o acesso cada vez maior da população infanto-juvenil a esses meios têm propiciado a disseminação desse tipo de agressão com grande rapidez.



Os danos provocados pelo cyberbullying são os mesmos da prática convencional. A única diferença está no meio pelo qual ele é desenvolvido. Apesar de não existir lei específica para punir esse tipo de crime, o agressor não fica impune devido ao mecanismo de rastreamento disponível no campo virtual. As denúncias de crimes eletrônicos podem ser feitas nas delegacias especializadas ou em organizações como a SaferNet, uma iniciativa voltada para o combate ao uso indevido da internet para a prática de crimes e violações contra os direitos humanos.



Mais informações:



Cleodelice Aparecida Zonato Fante

Educadora, graduada em História e Pedagogia. Pós-graduada em Didática do Ensino Superior. Pesquisadora do Bullying Escolar e autora do programa antibullying “Educar para a Paz”. Atualmente, é consultora da ONG Plan na Campanha ‘Aprender sem Medo’.

E-mail: cleofante@hotmail.com / cleofante@terra.com.br

Tel.: (17) 7811-5679 e 9745-2300

José Augusto Pedra

Psicólogo, psicoterapeuta e pós-graduado em Psicanálise e Inteligência Multifocal na Reconstrução da Educação. Atualmente é vice-presidente do Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes).

Tel.: (61) 34474370

Fax: (61) 34474370


Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA)

Tel: (55-021) 2589-5656 – Fax: (55-021) 2580-8057

Home Page: www.abrapia.org.br / www.bullying.com.br

E-mail: abrapia@abrapia.org.br / bullying@globo.com


Lucia Helena Saavedra

Psicóloga e coordenadora técnico-científica do Programa de Comportamento Agressivo entre Estudantes da ABRAPIA
Tel: (55-021) 2589-5656 – Fax: (55-021) 2580-8057


Aramis A. Lopes Neto

Médico pediatra. Sócio fundador da ABRAPIA e coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes.
Tel.: (21) 2542.3867 / (21) 9948.1431 / (21) 2597-7810 (consultório)
Fax: (21) 2589.5656
E-mail: bullying@globo.com



Alexandra Anache
Conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
Tel.: (61) 2109-0107 / 2109-20114 / 9319-0392
E-mail: ascom@pol.org.br

Iolete Ribeiro
Conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
Tel.: (61) 2109-0107 / 2109-20114 / 9319-0392
E-mail: ascom@pol.org.br


Vieira da Cunha
Deputado Federal (PDT-RS), autor do PL 5369/09
Tel.: (61) 3215-5711
Fax.: 3215-2711



Joares Ponticelli
Deputado Estadual (PP-SC), autor do PL 447.6/07
TeL.: (48) 3221-2711
Email.: joares@alesc.sc.gov.br



Rodrigo Nejm
Psicólogo, diretor de prevenção da ONG SaferNet e pesquisador na área de psicologia e novas mídias. Participante de pesquisas nacionais e internacionais sobre comportamentos online
Tel: (71) 3235-5910 / 9136-1741
Email: leninauzeda@safernet.org.br



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