segunda-feira, 19 de abril de 2010

Todo dia é dia de índio

O Dia do Índio é comemorado no Brasil em 19 de abril desde 1943, quando ganhou força a discussão sobre os direitos indígenas e a necessidade de preservação de suas terras e culturas.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) estima que hoje vivam no Brasil cerca de 460 mil índios e que haja entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas. Há também 63 referências de tribos ainda não contatadas. No universo indígena conhecido, já foram registradas cerca de 180 línguas, pertencentes a mais de 30 famílias lingüísticas diferentes.
Contribuir com a causa dos índios é apoiar a preservação da memória cultural brasileira. O passo mais importante é conhecer e disseminar as tradições indígenas para eliminar qualquer tipo de preconceito. Valorizar e compreender suas relações com a terra e com seus semelhantes constitui um enriquecedor aprendizado social. Neste sentido, todos podem ajudar de alguma forma.

Luciano de Souza


Abaixo, há um texto interessante, extraído do Site da Fundação Bradesco. Vale a pena conferir.



Aculturação


Os antropólogos evitam atualmente o termo "aculturação", por várias razões. É um termo que costuma ser usado com preconceito, com o sentido explícito ou implícito de que os índios que experimentam mudanças culturais deixam de ser índios - e portanto perdem seus direitos enquanto povos.
Ora, não há culturas estáticas, imutáveis, permanentes ou fechadas em si mesmas. A abstração que chamamos de cultura não é fácil de delimitar. Se tomarmos uma das definições possíveis para cultura como "saberes e conhecimento transmitidos ao conjunto dos membros de uma sociedade, através de um processo de aprendizagem." (François Laplantine, Aprendendo antropologia, p.120), é preciso reconhecer que as influências sobre esse conjunto, bem como seus componentes, são múltiplas, em contínua mudança, sofrendo o impacto de sociedades e sistemas de valores variados. A cultura de um povo está em transformação permanente.

O conceito de aculturação encobre a dominação econômica, a exploração do trabalho, a expropriação de terras, a proibição do uso de línguas e modos de vida e é insuficiente para explicar a condição dos índios e a diversidade de seus problemas e situações. Em cada caso de transformação cultural, é importante examinar que situação econômica, social e histórica está em jogo. Alguns exemplos podem ser esclarecedores.


Vejamos o caso de um índio Arara-Karo de Rondônia, cuja família e cujo povo foi expulso de suas terras por seringalistas ou seus capatazes por volta de 1950. Foi levado como trabalhador escravo, com sua mãe e um irmão, para um seringal. Deixou de falar a própria língua e esqueceu-a, pois julgava que se descobrissem que era índio o matariam. "Aculturou-se", tornou-se um trabalhador como os outros caboclos. Mais tarde, reencontrou seus parentes, através da FUNAI, voltou para sua área, então demarcada, tornou-se chefe e reaprendeu a língua (que o irmão mais velho não esquecera, mas também não falava com ele, por medo de repressão). Tem sentido dizer que esse índio, que aprendeu bem o português e todos os hábitos dos trabalhadores, é um "índio aculturado" ou melhor seria dizer que escapou de um genocídio e redescobriu seus direitos?


Algo semelhante pode dizer de índios bêbados na cidade, levados a essa situação pela forma do contato, por desespero com a alteração dos hábitos anteriores, ou por desconhecerem os efeitos do álcool (que tantos brasileiros não índios também não avaliam bem).


Tomemos um exemplo inteiramente diferente desses dois. Professores indígenas estão sendo formados para dar aulas em suas escolas nas aldeias, e já há regiões que contam com uma universidade indígena. Esses professores aprendem a usar computadores, a fazer pesquisa na internet, a escrever seus mitos e as lembranças dos mais velhos, tornam-se profissionais na área da saúde, simultaneamente aprendendo com pajés, ou formam-se advogados, defendendo suas comunidades e outros cidadãos. Muitos aprendem a transitar com naturalidade de um sistema de conhecimento e valores a outro. A pergunta a fazer é se são tão "aculturados" quanto os índios dos exemplos anteriores, ou seria melhor dizer que houve nesse caso um aprendizado da sociedade brasileira muito mais respeitoso dos direitos humanos e dos índios que na outra situação? Todos continuam índios, porém com meios de defesa muito distintos. Falar em aculturação não explica nada.


Estabelecer padrões culturais para definir quem é ou não índio é uma forma de genocídio cultural. O conceito de aculturação é esta camisa de força. O que não quer dizer que os índios não se transformem ao longo do tempo, conhecendo e compreendendo melhor o repertório cultural alheio, porém sem perder sua identidade e seus direitos.


Os índios do Nordeste, por exemplo, estão sempre sendo acusados de "aculturados", de não serem mais índios, de terem se tornados iguais aos outros brasileiros com quem convivem e que os cercam. Seus laços comunitários, porém, são muito fortes, mesmo quando não falam mais a própria língua, por força da repressão ao longo de séculos. Têm uma luta comum, que dura há séculos, para manter pelo menos parte de suas terras. Têm uma forma de chefia, um sistema de parentesco, religião, uma tradição oral passada de uma geração a outra, com estilos narrativos característicos, que os diferenciam do restante da população, com a qual não se confundem. Sua cultura é bem diferente da que tinham antes de 1500, bem mais próxima do universo dos outros brasileiros, mas ainda assim, identificam-se como um povo.


Exercício:


Encontre exemplos positivos e negativos de "aculturação", e de relação com tradições e raízes culturais.
Betty Midlin


Saiba mais no site: http://www.fundacaobradesco.org.br/indigena/



“É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica específica de cada uma das sociedades indígenas em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isto significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias.” – Funai.

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