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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poemas para crianças podem ser lúdicos, lindos e ainda deixar os pequenos mais sensíveis à leitura do mundo, como defende o Prof. Hélder Pinheiro


Ao contrário do que possamos imaginar, metáforas e estruturas heterodoxas não são difíceis para as crianças


A poesia é um gênero quase natural para a infância. Ao contrário do que possamos imaginar, metáforas e estruturas heterodoxas não são difíceis para as crianças. O que são poemas, afinal, senão brincadeiras com palavras e sentidos? A seguir, o professor Hélder Pinheiro defende a leitura constante de poesia com os pequenos, na escola e em casa: "Os professores e a família têm um papel fundamental: cultivar a leitura e a audição de poesia, se possível, todos os dias. Por que gostamos de música? Porque a ouvimos cotidianamente". Especialista em literatura brasileira e, especificamente, poesia, Pinheiro concedeu uma entrevista exclusiva ao Educar sobre a importância desse gênero para as crianças.

Hélder Pinheiro é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ensina literatura brasileira na Universidade Federal de Campina Grande (PB) e já publicou diversos livros e artigos sobre poesia. Entre eles, escreveu "Poesia na Sala de Aula" (Editora Ideia) e organizou "Poemas para crianças: reflexões, experiências e sugestões" (Editora Livraria Duas Cidades) e a coletânea "Pássaros e bichos na voz de poetas populares", que é altamente recomendada pela Fundação Nacional do Livro Infantil

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Que poesia infantil combina mais com você?

Comemore o Dia da Poesia compartilhando poemas que são a sua cara com filhos, sobrinhos ou alunos

A poesia é um gênero literário menos disseminado? Por que?

Prof. Hélder Pinheiro : São várias questões: acho que a poesia não é apreciada pelas crianças porque a escola e a família trabalham pouco com poemas e, quando trabalham, ainda permanece o ranço de usar como pretexto para ensinar alguma coisa. Recentemente, observei coleções de livros didáticos voltados para 1º ao 5º ano e constatei esse mesmo problema de 15 ou 20 anos atrás. Saindo do âmbito escolar, a poesia de algum modo sempre está presente na vida das pessoas, mas ler poesia de um modo mais cotidiano, ainda está longe de acontecer.

Para a criança, qual é a diferença entre a leitura de poesia e a de prosa?

Prof. Hélder Pinheiro : Às vezes acho que a criança - estou pensando na criança pequena, até 8 ou 10 anos - não percebe muita diferença. E não se deve insistir, desde cedo, em conceitos, em especificidades. Mas, embora não saiba a diferença, a criança pode experimentar esses gêneros de modo diferente. Enquanto a prosa, a narrativa, tem um enredo, cativa o leitor ou ouvinte para o desenrolar de determinados fatos e acontecimentos, o poema é mais instantâneo. Uma criança que ouça: "A bela bola rola/a bela bola de Raul", de Cecília, muitas vezes devaneia a partir deste primeiro verso do poema. Imagina a bola rolando, o colorido das bolas, a brincadeira. Certamente, o encanto da poesia para criança está, sobretudo, no som. A musicalidade é fundamental para encantar as crianças - e os adultos também.

A poesia para crianças tem uma característica específica?

Prof. Hélder Pinheiro : A questão central é a musicalidade. E ela se dá dos mais diversos modos: assonâncias, aliterações, rimas e repetições de palavras são alguns dos procedimentos. Mas também há outros aspectos: uma poesia mais conceitual, com imagens mais abstratas, no geral, tende a não encantar muito a criança. No entanto, muitas vezes ela adora o som, embora não entenda nada do sentido. Portanto, tema e forma (ou estrutura) devem sempre vir bem casados, para que a significação seja sempre mais rica. Também a poesia para crianças não deve ser muito longa. Há que se ter cuidado também com o vocabulário: palavras muito rebuscadas muitas vezes tornam qualquer poema pernóstico. Não acho que deva haver facilitação, mas também nada de querer ensinar vocabulário a partir de poesia - o que até pode acontecer, mas naturalmente.

A leitura de poesia desde a infância pode influenciar positivamente o desenvolvimento da sensibilidade estética?

Prof. Hélder Pinheiro : Acredito que sim, mas é difícil aferir de modo muito preciso. Não basta trabalhar a poesia na infância e abandoná-la na pré-adolescência, na adolescência e na vida afora. A educação para a sensibilidade poética deverá ser um projeto para a vida inteira. Se ele começar bem na infância, teremos mais chances de ter um adulto mais sensível, eu creio. Neste sentido, acho que a escola e a família têm um papel fundamental: cultivar a leitura ou audição de poesia, se possível, todos os dias. Por que gostamos tanto de música? Por ouvimos cotidianamente. E mais: não só um tipo ou um modelo de poema. A diversidade é fundamental para que a criança crie parâmetros, vá descobrindo que tipo de texto mais lhe agrada. A vida é muito complexa, não existem garantias de que a poesia determine uma sensibilidade estética. Mas mesmo sem certezas muito absolutas, acredito muito na contribuição da poesia para nos tornar mais alegres, mais sensíveis, mais humanos, enfim.

Quais grandes autores brasileiros escreveram poemas para crianças?

Prof. Hélder Pinheiro : Para mim, a maior é ainda a Cecília Meireles. "Ou isto ou aquilo" é uma obra excepcional. Pode-se ver a influência dela em quase todos os poetas que escreveram poemas para crianças depois dela. Depois, considero Sidónio Muralha também grande neste ramo. "A dança dos picapaus" e "A televisão da bicharada" são obras primorosas. Tem também o Vinícius de Moraes com "A arca de Noé", obra que traz um estilo próprio, diferente da Cecília, mais brincalhão, mais atento ao mundo animal. Esses são a santíssima trindade da poesia para crianças no Brasil. Há outros grandes, como José Paulo Paes e Sérgio Caparelli, que trazem um toque diferenciado.

Pais e professores podem colocar as crianças em contato com a obra poética de grandes autores não necessariamente voltados para o público infantil, como Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade?

Prof. Hélder Pinheiro : Em princípio, creio que sim. A questão é: como fazer essa aproximação. Os grandes poetas têm poemas que agradam a leitores de qualquer idade. Bandeira, Drummond, Cecília, entre outros, são exemplos disso - diversas antologias para crianças trazem poemas deles. Possivelmente, um poema como “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, não irá chamar a atenção de crianças. Mas poderá ser uma descoberta para adolescentes. Por outro lado, há poemas mais herméticos que exigem maior desenvolvimento cognitivo, experiências de vida diferenciada, o que poderá dificultar esta aproximação. Mesmo poemas não muito fáceis de serem compreendidos, se tiverem uma musicalidade destacada, poderão agradar. É sempre bom lembrar que mesmo a criança tendo contato desde cedo com poesia que não lhe foi destinada, o modo de percepção, as razões que as levam a gostar serão diferenciadas. Certamente crianças acostumadas com a música da poesia, no momento adequado, saberão beber na fonte de grandes poetas. E é sempre bom lembrar: boa poesia para criança é boa poesia para qualquer leitor, inclusive o que se acha o mais crítico, o mais intelectualizado.

O senhor poderia citar seus autores e poemas favoritos para crianças?

Prof. Hélder Pinheiro : Há alguns poemas que me acompanham pela vida afora. Sempre trabalho com eles na disciplina Literatura infantil, aqui na UFCG. Por exemplo, "O colar de Carolina", "Leilão de jardim" e "O menino azul", de Cecília Meireles; gosto muito de um poema chamado "O girassol", de Elias José. Um dos meus preferidos é "A dança dos pica-paus", de Sidónio Muralha. "O pato", de Vinicius de Moraes. Talvez o mais clássico, de que todos gostam, seja "A bailarina", de Cecília Meireles. Todos eles são bastante musicais, retomam brincadeiras infantis e o mundo animal. Muitos alunos de graduação e professores relatam experiências com esses e outros poemas, trabalhados de modo lúdico, e os resultados são sempre muito gratificantes.



http://educarparacrescer.abril.com.br/

A criança e a leitura

Pesquisas do mundo todo mostram que a criança que lê e tem contato com a literatura desde cedo, principalmente se for com o acompanhamento dos pais, é beneficiada em diversos sentidos: ela aprende melhor, pronuncia melhor as palavras e se comunica melhor de forma geral. "Por meio da leitura, a criança desenvolve a criatividade, a imaginação e adquire cultura, conhecimentos e valores", diz Márcia Tim, professora de literatura do Colégio Augusto Laranja, de São Paulo (SP).


A leitura frequente ajuda a criar familiaridade com o mundo da escrita. A proximidade com o mundo da escrita, por sua vez, facilita a alfabetização e ajuda em todas as disciplinas, já que o principal suporte para o aprendizado na escola é o livro didático. Ler também é importante porque ajuda a fixar a grafia correta das palavras.

Quem é acostumado à leitura desde bebezinho se torna muito mais preparado para os estudos, para o trabalho e para a vida. Isso quer dizer que o contato com os livros pode mudar o futuro dos seus filhos. Parece exagero? Nos Estados Unidos, por exemplo, a Fundação Nacional de Leitura Infantil (National Children’s Reading Foundation) garante que, para a criança de 0 a 5 anos, cada ano ouvindo historinhas e folheando livros equivale a 50 mil dólares a mais na sua futura renda.

Então, o que está esperando? Veja nossas recomendações e estimule seu filho a embarcar na aventura que só o bom leitor conhece. Você pode encontrar boas dicas de livros em nossa biblioteca básica de leitura!

Quais são os benefícios da leitura?

Segundo o Ministério da Educação (MEC) e outros órgãos ligados à Educação, a leitura:
Desenvolve o repertório: ler é um ato valioso para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional. É uma forma de ter acesso às informações e, com elas, buscar melhorias para você e para o mundo.

Liga o senso crítico na tomada: livros, inclusive os romances, nos ajudam a entender o mundo e nós mesmos.

Amplia o nosso conhecimento geral: além de ser envolvente, a leitura expande nossas referências e nossa capacidade de comunicação.

Aumenta o vocabulário: graças aos livros, descobrimos novas palavras e novos usos para as que já conhecemos

Estimula a criatividade: ler é fundamental para soltar a imaginação. Por meio dos livros, criamos lugares, personagens, histórias…

Emociona e causa impacto: quem já se sentiu triste (ou feliz) ao fim de um romance sabe o poder que um bom livro tem.

Muda sua vida: quem lê desde cedo está muito mais preparado para os estudos, para o trabalho e para a vida.

Facilita a escrita: ler é um hábito que se reflete no domínio da escrita. Ou seja, quem lê mais escreve melhor.

Quando começar a ler para meu filho?

O quanto antes. As pesquisas mostram que quem começa a ler cedo tem mais chances de se tornar um leitor assíduo. Mostram também que o contato com narrativas melhora o futuro desempenho da criança. Por isso, leia - ou conte as histórias que você conhece - para seu filho desde bebê. É importante usar a entonação e a emoção!

Como incentivar meu filho a ler?

Pequenos passos, como deixar os livros ao alcance das mãos e ler pelo menos 20 minutos por dia, fazem toda a diferença. Algumas dicas práticas:

Dê o exemplo e leia você também. É bom para você e excelente para seu filho, que seguirá seu modelo naturalmente.

Deixe os livros à mão para ele folhear e inventar histórias. Livros têm de ser vividos, usados, não podem parecer objetos sagrados.

Reserve um horário para a leitura e transforme em um momento de prazer. Aconchegue-se com seu filho, leia para ele, mostrando as palavras. Quando ele crescer, ajude-o na leitura.

Frequente livrarias e bibliotecas. Dê livros, gibis ou revistas de presente.

Comente sempre o livro com ele. Incentive-o a falar da história e contá-la para outras pessoas.

Empreste livros para os amiguinhos dele. Estimule a troca e as conversas.

Estimule atividades que usem a leitura - jogos, receitas, mapas


Como escolher um livro para meu filho?

Livros com temas atraentes e linguagem adequada para cada idade são garantia de diversão. “Para conquistar os pequenos leitores, é preciso recomendar livros pelos quais eles se interessem. Tomando o cuidado, claro, de escolher obras que proponham algum tipo de reflexão e que sejam bem escritas”, diz Ana Elvira Casadei Iorio, professora do Colégio São Luís, de São Paulo (SP).

Cuidado para não forçar a barra - nunca obrigue a leitura nem indique obras impróprias para a sua faixa etária. Se começarmos exigindo que eles leiam livros mais sérios e pesados, podemos perder o leitor

Por que é importante que eu leia para o meu filho?

Antes de mais nada, porque isso vai estreitar o vínculo familiar... Afinal, trata-se de uma experiência compartilhada. Lendo, você ri e se emociona, mostra à criança seu lado humano e capta os sentimentos dela. Quem não se lembra da cena do filme "ET - O Extraterrestre" em que a mãe lê "Peter Pan", clássico de James M. Barrie, para a pequena Drew Barrymore: "Se você acredita em fadas, bata palmas!". E as duas batem palmas animadamente. Só Spielberg para mostrar tão bem esse momento de intimidade e alegria em família.

Quanto tempo eu devo ler para meu filho?

Nos Estados Unidos, são muitas as campanhas pró-leitura. Uma delas, da Fundação Nacional de Leitura Infantil (National Children's Reading Foundation, www.readingfoundation.org), que reúne instituições voltadas à disseminação da leitura, tem um slogan que diz muito em poucas palavras: “Leia com uma criança. São os 20 minutos mais importantes de seu dia”. Ou seja, não é preciso ler por muito tempo, mas é importante inserir a leitura na rotina da criança e da família.

Como deve ser a leitura para crianças pré-alfabéticas?

Compartilhar uma história já é uma forma de leitura. "O fato de a criança ainda não saber ler convencionalmente não significa que não possa presenciar das mais variadas situações de leitura", explica Clélia Cortez, coordenadora pedagógica do Colégio Vera Cruz, em São Paulo (SP). Nesta situação, o adulto é um mediador entre a criança e o livro, ou seja, é ele quem lê para ela, de preferência com entonação e emoção. "Neste momento, o que interessa é o prazer pela leitura e o afeto que envolve o momento", reforça Clélia Cortez.

Muitos dos livros para crianças em fase de pré-alfabetização são verdadeiros brinquedos. Coloridos e dobráveis, eles são muito lúdicos, o que estimula o gosto pelos livros. "Desde pequenas, as crianças devem se sentir motivadas a ler. Elas precisam perceber a leitura como um desafio interessante e prazeroso", completa Clélia Cortez.

Como escolher um livro para crianças?

É importante atentar para a adequação entre a idade da criança e a faixa etária indicada no próprio livro. Indicações de parentes, amigos e principalmente, educadores, ajudam - e muito. É válido considerar também os temas que interessam mais aos pequenos leitores. Outro aspecto fundamental é apresentar às crianças narrativas simples, porém ricas - afinal os textos precisam ter vocabulário acessível, mas não podem subestimar o pequeno leitor. "Embora possa ser menor, a narrativa tem uma riqueza na construção da linguagem, até porque as crianças dessa idade estão em processo de construção da oralidade e precisam ter boas referências. A linguagem está relacionada com o pensamento, por isso a importância de oferecer ricas narrativas", diz Clélia Cortez, coordenadora pedagógica do Colégio Vera Cruz, em São Paulo (SP).

Como escolher um livro para adolescentes?

Para os mais velhos, vale a pluralidade de gêneros literários e finalidades - livros para divertir, para imaginar, para conhecer outras culturas, para estudar; livros que abordem valores e boas atitudes, que tenham personagens com os quais eles se identifiquem. O principal é, de novo, que tragam boas referências. "É nessa fase que os alunos estão começando a produzir seus próprios textos", diz a Lara Pecora Polazzo, professora do Colégio Santa Maria, de São Paulo (SP).

A leitura ajuda a aumentar o vocabulário?

Sim, a leitura ajuda a aumentar o vocabulário, pois familiariza a criança com a palavra escrita e, de quebra, ajuda a fixar a grafia correta das palavras e a construção harmônica das frases.
Textos com estrutura de repetição costumam ser muito apreciados pelas crianças. São fáceis de memorizar e ainda possibilitam a identificação das palavras repetidas, o que é importante para a alfabetização. "Ao acompanhar a leitura das palavras de um livro, a criança, mesmo que ainda não seja alfabetizada, vai sendo introduzida no mundo das letras", afirma Célia Cortez, coordenadora pedagógica do Colégio Vera Cruz, em São Paulo (SP).

Como diferenciar um livro ruim de um bom?

Em tese, toda leitura é bem-vinda. Ter contato com obras de diferentes estilos é fundamental. "Livros para divertir, para imaginar, para conhecer outras culturas, para estudar; livros que abordem valores e boas atitudes, que tenham personagens com os quais as crianças se identifiquem", afirma Lara Pecora Polazzo, professora do Colégio Santa Maria, de São Paulo (SP). Por isso, não há problemas em ler com interesse - compulsão, até - best-sellers como Crepúsculo ou Harry Potter. Mas os pais têm obrigação de intermediar o contato do filho com outras experiências literárias. "A orientação de um leitor mais experiente é muito importante", diz Neusa Sallai, professora do Colégio Rio Branco, de São Paulo (SP).

É importante que eu mesmo leia?

Sim, pois o hábito da leitura é contagiante. Se os pais, volta e meia, ficam quietinhos, mergulhados num bom livro, a criança com certeza receberá a mensagem: ler é gostoso. Por isso, dê o bom exemplo. A pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", publicada pelo Instituto Pró-Livro em 2009, indica que, 55% dos entrevistados que não lêem nunca viram os pais lendo e 86% nunca foram presenteados com livros na infância. Precisamos mudar isso!

Quer que seu filho leia mais? Então faça o mesmo e comece a substituir alguns momentos em frente à TV pela leitura.
Sempre que estiver lendo um jornal, chame seu filho para ver algo interessante que você encontrou. Pode ser uma tirinha engraçada, uma imagem ou uma notícia do interesse dele.

Não sabe que programas fazer com as crianças? Frequente livrarias. Deixe seus filhos folhearem os livros, leia histórias para eles e, quando possível, leve algum para casa. E, mesmo que você possa, não compre muitos num só dia. Procure manter o hábito de voltar lá outras vezes e levar um por vez.

Quantos livros meu filho deve ler por ano?

Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), cada brasileiro lê pouco mais de dois livros por ano. Na Inglaterra, que tem um dos melhores sistemas de ensino do mundo, a média chega a cinco livros anuais. Que tal acompanhar o ritmo dos ingleses ou, até mesmo, superá-lo?

Eu não tenho dinheiro para comprar livros. O que faço?

Para quem não compra livros porque são caros, é hora de abandonar a desculpa: a maioria dos brasileiros não precisa, necessariamente, gastar aos montes nas livrarias. Segundo dados do IBGE, 85% dos nossos municípios possuem bibliotecas públicas e bem equipadas! Acostume-se a frequentá-las com o seu filho e mostre quanta coisa interessante ele pode descobrir com os livros.

http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/importancia-leitura-521213.shtml

terça-feira, 20 de abril de 2010

JOSÉ BENTO MONTEIRO LOBATO


PALITOCHES


Encontrei mais uma idéia muito legal para trabalhar o dia do livro infantil no site: http://www.ofimdavarzea.com/

Contar a história de Monteiro Lobato utilizando os palitoches

José Bento Monteiro Lobato

Monteiro Lobato era uma criança que adorava ler. Ele nasceu no dia 18 de abril de 1882, em Taubaté, interior de São Paulo e morou com seu avô, o Visconde de Tremembé. Na biblioteca da casa, ele lia de tudo, revistas, livros de literatura mundial. Aos nove anos, resolveu mudar seu nome, de José Renato Monteiro Lobato para José Bento Monteiro Lobato só para usar a bengala de seu pai, porque nela havia as iniciais JBLM gravadas.

Foi da infância em Taubaté que Lobato buscou inspiração para seus livros e da crendice do povo do interior que surgiram personagens como o Saci, Narizinho, tia Nastácia e tantos outros.
Com Narizinho Arrebitado lança o Sítio do Picapau Amarelo e seus célebres personagens. Através de Emília diz tudo o que pensa; na figura do Visconde de Sabugosa critica o sábio que só acredita nos livros já escritos. Dona Benta é o personagem adulto que aceita a imaginação criadora das crianças. Admitindo as novidades que vão modificando o mundo. Tia Nastácia é o adulto sem cultura que vê, no que é desconhecido, o mal, o pecado. Narizinho e Pedrinho são crianças de ontem, hoje e amanhã, abertas a tudo, querendo ser felizes, confrontando suas experiências com o que os mais velhos dizem, mas sempre acreditando no futuro.
E assim o pó de Pirlimpimpim continuará a transportar crianças do mundo inteiro ao Sítio do Picapau Amarelo, onde não há horizontes limitados por muros de concreto e por idéias tacanhas.
Em 4 de julho de 1948 perde-se esse grande homem, vítima de colapso, na capital de São Paulo.
Mas o que tinha de essencial, seu espírito jovem, sua coragem, está vivo no coração de cada criança. Viverá sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundível de “Emília”.

PALITOCHES

MOLDES PARA PINTAR E CLAR NO PALITO DE PICOLÉ

ALGUMAS ATIVIDADES POSSÍVEIS

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Todo dia é dia de índio

O Dia do Índio é comemorado no Brasil em 19 de abril desde 1943, quando ganhou força a discussão sobre os direitos indígenas e a necessidade de preservação de suas terras e culturas.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) estima que hoje vivam no Brasil cerca de 460 mil índios e que haja entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas. Há também 63 referências de tribos ainda não contatadas. No universo indígena conhecido, já foram registradas cerca de 180 línguas, pertencentes a mais de 30 famílias lingüísticas diferentes.
Contribuir com a causa dos índios é apoiar a preservação da memória cultural brasileira. O passo mais importante é conhecer e disseminar as tradições indígenas para eliminar qualquer tipo de preconceito. Valorizar e compreender suas relações com a terra e com seus semelhantes constitui um enriquecedor aprendizado social. Neste sentido, todos podem ajudar de alguma forma.

Luciano de Souza


Abaixo, há um texto interessante, extraído do Site da Fundação Bradesco. Vale a pena conferir.



Aculturação


Os antropólogos evitam atualmente o termo "aculturação", por várias razões. É um termo que costuma ser usado com preconceito, com o sentido explícito ou implícito de que os índios que experimentam mudanças culturais deixam de ser índios - e portanto perdem seus direitos enquanto povos.
Ora, não há culturas estáticas, imutáveis, permanentes ou fechadas em si mesmas. A abstração que chamamos de cultura não é fácil de delimitar. Se tomarmos uma das definições possíveis para cultura como "saberes e conhecimento transmitidos ao conjunto dos membros de uma sociedade, através de um processo de aprendizagem." (François Laplantine, Aprendendo antropologia, p.120), é preciso reconhecer que as influências sobre esse conjunto, bem como seus componentes, são múltiplas, em contínua mudança, sofrendo o impacto de sociedades e sistemas de valores variados. A cultura de um povo está em transformação permanente.

O conceito de aculturação encobre a dominação econômica, a exploração do trabalho, a expropriação de terras, a proibição do uso de línguas e modos de vida e é insuficiente para explicar a condição dos índios e a diversidade de seus problemas e situações. Em cada caso de transformação cultural, é importante examinar que situação econômica, social e histórica está em jogo. Alguns exemplos podem ser esclarecedores.


Vejamos o caso de um índio Arara-Karo de Rondônia, cuja família e cujo povo foi expulso de suas terras por seringalistas ou seus capatazes por volta de 1950. Foi levado como trabalhador escravo, com sua mãe e um irmão, para um seringal. Deixou de falar a própria língua e esqueceu-a, pois julgava que se descobrissem que era índio o matariam. "Aculturou-se", tornou-se um trabalhador como os outros caboclos. Mais tarde, reencontrou seus parentes, através da FUNAI, voltou para sua área, então demarcada, tornou-se chefe e reaprendeu a língua (que o irmão mais velho não esquecera, mas também não falava com ele, por medo de repressão). Tem sentido dizer que esse índio, que aprendeu bem o português e todos os hábitos dos trabalhadores, é um "índio aculturado" ou melhor seria dizer que escapou de um genocídio e redescobriu seus direitos?


Algo semelhante pode dizer de índios bêbados na cidade, levados a essa situação pela forma do contato, por desespero com a alteração dos hábitos anteriores, ou por desconhecerem os efeitos do álcool (que tantos brasileiros não índios também não avaliam bem).


Tomemos um exemplo inteiramente diferente desses dois. Professores indígenas estão sendo formados para dar aulas em suas escolas nas aldeias, e já há regiões que contam com uma universidade indígena. Esses professores aprendem a usar computadores, a fazer pesquisa na internet, a escrever seus mitos e as lembranças dos mais velhos, tornam-se profissionais na área da saúde, simultaneamente aprendendo com pajés, ou formam-se advogados, defendendo suas comunidades e outros cidadãos. Muitos aprendem a transitar com naturalidade de um sistema de conhecimento e valores a outro. A pergunta a fazer é se são tão "aculturados" quanto os índios dos exemplos anteriores, ou seria melhor dizer que houve nesse caso um aprendizado da sociedade brasileira muito mais respeitoso dos direitos humanos e dos índios que na outra situação? Todos continuam índios, porém com meios de defesa muito distintos. Falar em aculturação não explica nada.


Estabelecer padrões culturais para definir quem é ou não índio é uma forma de genocídio cultural. O conceito de aculturação é esta camisa de força. O que não quer dizer que os índios não se transformem ao longo do tempo, conhecendo e compreendendo melhor o repertório cultural alheio, porém sem perder sua identidade e seus direitos.


Os índios do Nordeste, por exemplo, estão sempre sendo acusados de "aculturados", de não serem mais índios, de terem se tornados iguais aos outros brasileiros com quem convivem e que os cercam. Seus laços comunitários, porém, são muito fortes, mesmo quando não falam mais a própria língua, por força da repressão ao longo de séculos. Têm uma luta comum, que dura há séculos, para manter pelo menos parte de suas terras. Têm uma forma de chefia, um sistema de parentesco, religião, uma tradição oral passada de uma geração a outra, com estilos narrativos característicos, que os diferenciam do restante da população, com a qual não se confundem. Sua cultura é bem diferente da que tinham antes de 1500, bem mais próxima do universo dos outros brasileiros, mas ainda assim, identificam-se como um povo.


Exercício:


Encontre exemplos positivos e negativos de "aculturação", e de relação com tradições e raízes culturais.
Betty Midlin


Saiba mais no site: http://www.fundacaobradesco.org.br/indigena/



“É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica específica de cada uma das sociedades indígenas em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isto significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias.” – Funai.

Hoje é dia do índio . O que isso significa?

O Brasil era ocupado por 900 etnias indígenas quando os europeus começaram a chegar por aqui. Culturas tão diferentes e tão incompreendidas! Hoje, são 206 grupos, com 170 idiomas e conhecimentos próprios. Passados 500 anos, como diz a bonita apresentação postada por Milton Aizemberg em sua página, estamos aprendendo ainda a lição de co-existirmos.


E termos um dia no calendário anual, dedicado aos povos indígenas é um chamado, para que possamos descobrir cada vez mais como construir alianças entre todas as raças, aproveitando os saberes de cada uma e melhorando a qualidade de vida de toda a família humana.

A comunidade do Banco do Planeta reúne um rico material sobre povos indígenas, postados inclusive, por integrantes de tribos, como Karkaju Pataxó, que divulgou o projeto de etnoecoturismo de seu povo, nas terras de Coroa Vermelha, em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia.

Outro exemplo interessante é a trilha medicinal, criada pelos Guaranis de Biguaçu, SC, destacada por Fabricio Escandiuzzi.

Esta rede reúne vários outros exemplos de boa interação entre as culturas, como a unidade de descascamento de castanhas do Pará que elevou em 40% a renda de 2.200 índios no Mato Grosso e a antena via satélite conectando uma aldeia isolada, no mesmo Estado, que chamou a atenção de Francisco Assis.

É interessante fazer uma busca com este tema e descobrir quanta informação está disponível. E ainda surpreender-se com a presença no Banco de Planeta de pessoas muito engajadas em proteger os índios e criar pontes entre os 'pele vermelha' e os 'brancos', como Paulo Celso Villas-Bôas, presidente da Fundação que leva o sobrenome de sua família, famosa por mostrar ao Brasil a riqueza e diversidade cultural dos povos indígenas, com as renomadas expedições Villas-Bôas. Ou Débora Fontes Palmeira, diretora pedagógica da Reserva Thá-Fenes, onde vivem Kariri Xocós e Fulni-ôs, em Lauro de Freitas, BA.

Interaja, informe-se e aproveite para fazer mais amigos, inclusive com estes que foram os primeiros habitantes destas terras. Afinal como publicou Luciano de Souza em sua página: Todo dia é dia de índio.

Saiba mais também no site: http://www.fundacaobradesco.org.br/indigena/

sexta-feira, 2 de abril de 2010

UMA EXPERIÊNCIA DE GESTÃO QUE DEU CERTO

Eu fiz... E deu certo


Conheça cinco histórias de gestores que, sem medo das dificuldades, arregaçaram as mangas e conseguiram transformar a realidade de suas escolas, para a alegria da comunidade, das famílias e dos estudantes

Paula Pacheco e Rodrigo Ratier

Nova proposta de ensino

Plácido José Souza Cavalcante é diretor do EE Liceu, de Maracanaú, a 20 quilômetros de Fortaleza, há três anos e meio. Frustrado com o desempenho dos alunos, reuniu a comunidade e implementou uma série de mudanças. Uma delas foi a substituição do ensino anual pelo semestral, com um período para as disciplinas de Ciências Humanas e outro para Ciências da Natureza. A aposta foi na concentração como forma de facilitar o aprendizado, com uma revisão no semestre seguinte para que o aluno atualize os conhecimentos. Outra inovação foi a prova que os estudantes podem levar para casa e responder no dia seguinte, na escola. "Isso provocou uma mobilização geral. Começamos a ver turminhas de alunos espalhadas pela escola antes das avaliações", explica. O teste acontece duas vezes ao ano, dura três dias e tem peso de prova bimestral.



O Liceu, que ficou em sétimo lugar no Enem no Ceará, com média de 5,3, recebeu vários prêmios e participou de eventos nacionais e internacionais. Para Plácido, o sucesso deve-se à união de docentes, funcionários e comunidade. "As pessoas gostam de ser estimuladas, de ser solicitadas. O papel do diretor é valorizar o ser humano e as suas crenças", conclui.



Desafio amazônico

Na EE Pedro dos Santos, as paredes falam. E muito: o que primeiro salta aos olhos é a manutenção impecável da construção, com salas bem conservadas e banheiros cheirando a limpeza. Na área comum, a produção da criançada ganha voz em painéis, dividindo espaço com quadros sobre a missão da escola e seus objetivos estratégicos. Até o teto tem história: dele pendem poesias dos alunos, decorando as mesas do refeitório ao lado do jardim florido.



Tudo muito diferente da situação encontrada pelo gestor Paulo Amaro Gomes de Andrade em 2001. À época, não havia saneamento básico nem luz elétrica, e a evasão batia em alarmantes 47%. Hoje, a aprovação é de 96%, e o abandono, apenas 2%. Uma revolução, reconhecida com o Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar de 2005, que começou a nascer com a aposta nas relações interpessoais. "Ao longo do meu primeiro ano, organizei reuniões mensais com a comunidade para que, juntos, decidíssemos qual escola queríamos. Foi uma forma de dividir a gestão entre todos", lembra.

A partilha de responsabilidades segue valendo. Os produtores locais doam frutas para completar a merenda escolar. As contribuições voluntárias bancam pequenas reformas e o diesel dos barcos, que transportam cerca de 800 estudantes. Se alguém quebra uma cadeira, tem de consertar. Pais de alunos faltosos precisam ir à escola justificar a ausência. Os professores, por sua vez, fazem o planejamento diário e uma lista mensal para as famílias com os conteúdos ensinados.



O registro de todos esses compromissos fica nas mãos do diretor. Para cada tarefa, da entrega do material escolar ao número de faltas, Paulo mantém um caderno. "Isso dá agilidade ao diagnóstico dos problemas. Depois, as melhorias são socializadas nos murais." A próxima batalha é ampliar as instalações para atender melhor os 950 alunos - hoje, há salas sob a cobertura externa da quadra de esportes. Mas o esforço de não deixar ninguém para trás é reconhecido mesmo por quem não estuda em condições ideais. Durante a manhã em que a reportagem de NOVA ESCOLA esteve na Pedro dos Santos, um grupo de meninas do 1º ano do Ensino Médio embelezava, com arranjos de girassóis, cada carteira da sala improvisada. Na escola em que as paredes falam, até uma classe sem paredes dá o que falar.





No ritmo da fanfarra

Em Sertãozinho, a 340 quilômetros de São Paulo, o distrito de Cruz das Posses era discriminado pela população urbana. Apesar de encravado numa região de alto poder aquisitivo, o lugar tem uma população de baixa renda, formada, na maioria, por trabalhadores rurais. A falta de perspectivas era passada de pai para filho, a evasão escolar era grande, as meninas só cogitavam trabalhar como domésticas e os meninos desistiam dos estudos para cortar cana-de-açúcar. Sidney Roberto Fernandes assumiu a direção da EE Dr. Isaías José Ferreira em 2002. Mesmo sem experiência, entusiasmou-se com o desafio. Um instrutor de Música se ofereceu para ajudá-lo num projeto extraclasse, que acabou extremamente bem-sucedido. Os instrumentos foram encontrados num depósito de coisas antigas, e assim nasceu a fanfarra, com cerca de 100 integrantes, hoje premiada e com participação em eventos de vários estados.



Num primeiro momento, a banda mudou o clima na escola. Mas o que realmente importa é que os alunos vêm obtendo desempenho cada vez melhor: a taxa de aprovação nas séries finais do Ensino Fundamental está na casa de 95%. Cada estudante passou a ter uma ficha individual de avaliação e a equipe aproveitou a gestão participativa proposta por Sidney para se envolver mais no dia-a-dia. Professores viraram voluntários no Projeto Lado a Lado, que reúne até seis jovens com dificuldades de aprendizado em grupos de estudo. Eles têm atividades de reforço e são liberados quando o educador percebe que atingiu o objetivo. Uma verdadeira aula de dedicação.



Diretora em sala de aula



Maristélia Alves Santos é diretora do Centro de Atenção Integral à Criança (Caic) de Palmas, capital do Tocantins, há nove anos. Ela tem sob sua responsabilidade 1,6 mil alunos. Para entender melhor as dificuldades de aprendizagem deles, Maristélia tomou uma decisão inusitada: passou a assistir às aulas. Foi depois disso que ela propôs a criação de turmas dentro de cada classe, de modo a permitir que os professores dessem atenção especial para quem tinha dificuldades. Outra idéia foi implantar uma metodologia de ensino por blocos. As aulas passaram de 48 para 120 minutos e, em vez de 12 disciplinas, os estudantes agora têm de seis a oito.



Hoje, a escola tem evasão zero e há espera por vagas - um quadro bem diferente do que a diretora encontrou na chegada. "O Caic era ocupado por gangues, sem a participação da comunidade e com funcionários descompromissados. Quando assumi, pensei em entregá-la. Mas isso se tornou parte do desafio de mudar aquela situação e envolver todos", conta. Ela apostou na descentralização e divide com a Associação Comunidade Escola todas as decisões sobre investimentos e novos projetos.



A dança da aprendizagem



Sandra Luzia Ferreira Reis conseguiu transformar a realidade da EM Bataillard, em Petrópolis, a 67 quilômetros do Rio de Janeiro. No cargo há 15 anos, ela encontrou um quadro desolador quando chegou à instituição. Em meio a uma região pobre e freqüentada por alunos que haviam abandonado outras escolas ou tinham sido "convidados a sair", Sandra apostou na abertura das portas para a comunidade como forma de conseguir apoio nos projetos e conter a evasão. Além de virar um ponto de encontro para a discussão dos problemas dos moradores, a Bataillard passou a oferecer nos fins de semana atividades paralelas, como emissão de documentos, corte de cabelo e pequenas oficinas para os pais. Aos poucos, com essas ações, descobriu-se que aqueles estudantes tinham outras vocações. E foi assim que surgiram um grupo de teatro e um de dança, que já viajaram para várias cidades do país e até para o exterior. O desempenho em sala de aula também mudou. Em 1993, Sandra lidava com um índice de reprovação que chegava a 50% ao ano. Hoje a aprovação é de 90%. No Ideb também houve avanços. A escola saiu de 3,6, em 2005, para 4,2, no ano passado.



"No começo, a vontade era ir embora. Mas hoje a situação é completamente diferente. Aos poucos, outros funcionários foram chegando e se engajando no projeto. Eram pessoas que, assim como eu, não se contentavam com pouco", recorda. Atualmente, a maioria participa de forma voluntária de atividades extraclasse. E no horário de aula cada um procura fazer o seu melhor. A merendeira, por exemplo, além de buscar o apoio de nutricionistas para aprender novas formas de aproveitar os alimentos, ensina a importância da boa alimentação. As reuniões com toda a equipe ocorrem pelo menos uma vez por mês. É uma oportunidade para que os funcionários de diferentes departamentos façam propostas para aperfeiçoar a escola e a relação com os estudantes. "É quando falamos também sobre os resultados, que seguem em alta. Aí todos ficam ainda mais animados e o ciclo se realimenta", ensina Sandra.



Fonte: Revista Nova Escola (11/2008)

Entrevista: Howard Gardner: "Os burros são raros"

"Os burros são raros"

O psicólogo americano diz que a maioria das pessoas é inteligente para algumas áreas do conhecimento e que o teste de QI não expressa esse fato

"Com esforço, a inteligência humana pode ser aprimorada apenas até um certo ponto. A genialidade é para poucos"

Monica Weinberg

O psicólogo americano Howard Gardner deu um passo adiante na compreensão da inteligência humana ao concluir, com base em duas décadas de estudos, que a mente é composta de múltiplas capacidades independentes entre si. Ele descreveu cientificamente oito tipos de inteligência: a lingüística e a lógica (medidas em testes de QI), além da espacial, musical, corporal, naturalista (a habilidade de compreender os fenômenos naturais), intrapessoal (a de reconhecer os próprios defeitos e qualidades -- e tomar decisões com base neles) e interpessoal (a de interpretar as intenções alheias e exercer a liderança). A teoria de Gardner, que na década de 90 passou a influenciar acadêmicos e educadores, teve o mérito de subverter a visão de que a humanidade se divide basicamente entre seres iluminados e aqueles desprovidos de inteligência. Diz o psicólogo: "Há infinitas nuances. Pablo Picasso foi um gênio da pintura, mas era péssimo aluno". Aos 64 anos, professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e autor de vinte livros sobre o assunto, Gardner tem viajado o mundo para proferir palestras nas quais fala sobre genialidade, liderança e sala de aula. Ele concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Há pessoas menos inteligentes do que outras?

Gardner – Cada um tem uma mistura singular dos vários tipos de inteligência, o que torna a questão bem mais complexa do que dividir a humanidade entre burros e inteligentes. A observação científica mostra que o mundo está cheio de gente que se destaca no pensamento lógico, mas não tem inteligência suficiente para expressar uma idéia com começo, meio e fim. Ou de pessoas que são brilhantes ao filosofar sobre as grandes questões do mundo moderno e não têm nenhum traquejo para executar exercícios físicos de jardim-de-infância. Conclusão: a maioria das pessoas é, ao mesmo tempo, inteligente para algumas áreas do conhecimento e limitada para outras. Estou me referindo à média. Bem mais raros são os casos de gente desprovida de qualquer inteligência. Mas eles existem.

Veja – Até que ponto é possível desenvolver a inteligência?

Gardner – Essa é uma questão que vem intrigando os especialistas há séculos. Nas sociedades asiáticas influenciadas pelo confucionismo, vigora a idéia de que as pessoas diferem pouco no intelecto. Mais importante para seu sucesso é o esforço despendido por cada um. No Ocidente, por sua vez, circula a visão de que a inteligência é inata e de que quase nada se pode fazer para mudá-la. O fato é que a ciência já reuniu evidências suficientes para concluir que a inteligência é resultado dos dois fatores: a genética e a experiência de cada um. Ainda não se sabe qual deles tem mais peso. Algumas habilidades, como o raciocínio lógico e o talento para a música, sofrem maior influência da genética. Mas, no geral, tudo indica que os genes e o ambiente contribuam em igual proporção na formação da inteligência humana. Certamente não estão determinadas no berçário todas as capacidades intelectuais das pessoas, o que quer dizer, sim, que é possível esculpir a inteligência – ainda que haja limitações para isso.

Veja – Quais são os limites mais evidentes para o desenvolvimento da inteligência?

Gardner – A primeira barreira é imposta pela própria biologia: o tempo de vida de um indivíduo, em média de 70 anos, é curto para certos desafios intelectuais. O segundo ponto é que, quanto mais velha uma pessoa, mais dificuldade ela tem para mudar seu perfil de inteligência. Está demonstrado por meio de extensas pesquisas que a fase em que a experiência causa mais impacto ao cérebro é até os 20, 25 anos de vida. As pessoas podem até ficar mais sábias depois disso, mas não mais inteligentes. A única exceção a essa lógica é quanto às inteligências pessoais, aquelas que definem as capacidades de autoconhecimento e de lidar com seus semelhantes. Há evidências de que apenas estas se aperfeiçoam ao longo da vida. Um terceiro problema é que as chances de alguém sair das trevas numa determinada área de conhecimento também dependem de sua condição socioeconômica.

Veja – Como a classe social influencia na construção da inteligência?

Gardner – Está claro que um menino pobre do Brasil tem menos probabilidade de desenvolver suas múltiplas inteligências do que uma criança rica dos Estados Unidos. O jogo é desigual por uma razão simples: onde existem carências de recursos, há falta de estímulos. Feitas essas ponderações, não restam dúvidas de que, à custa de esforço, é possível alcançar bons resultados no aprimoramento da inteligência. Mas, na discussão sobre esse tema, há ainda outro aspecto que considero bastante interessante: o da genialidade. Os estudos indicam que é impossível tornar-se genial numa área para a qual não se tem talento natural.

Veja – Por quê?

Gardner – Está suficientemente demonstrado que são vários os fatores que atuam ao mesmo tempo para produzir tais talentos excepcionais – e não apenas um. Ao estudar trinta grandes gênios de áreas distintas, descobri uma característica em comum entre eles: são pessoas que exibem um conjunto de pelo menos dois tipos de inteligência em que sobressaem. Numa delas, têm desempenho extraordinário. Albert Einstein (físico alemão, 1879-1955), por exemplo, mostrava um fantástico raciocínio lógico-matemático e se destacava nas capacidades espaciais. Além de um talento especial para a música, Igor Stravinsky (compositor russo, 1882-1971) demonstrava outras inteligências artísticas, o que provavelmente explica sua carreira eclética: foi um grande compositor de balés, era capaz de musicar textos e tornou-se um dos comentaristas mais incisivos de sua época. Gosto também de citar o futebol. Se você nasce sem grande potencial nas áreas do pensamento espacial e do raciocínio lógico, pode treinar 365 dias por ano, ao longo de uma década, para, enfim, se tornar um bom jogador de futebol. Mas jamais será um Pelé.

Veja – Entre os oito tipos de inteligência que o senhor descreve, há um que seja mais determinante para o sucesso nas sociedades modernas?

Gardner – Certamente a inteligência mais valorizada hoje é a que defino como lógico-matemática. Digo isso com base num fato concreto: a maioria das grandes empresas procura, no mundo inteiro, gente capaz de observar padrões, manipular números e produzir análises objetivas. São pessoas com uma cabeça mais científica. Não estamos falando aqui apenas de matemáticos e engenheiros, mas de um jeito de atuar em diversas profissões. O pensamento lógico representa para a sociedade moderna o que significava a habilidade lingüística quinhentos anos atrás. Naquele tempo, as explicações mais convincentes para os fenômenos se propagavam por meio de relatos – contados ou escritos. Saber empregar um idioma com desenvoltura era, por essa razão, um bem incomparável. Com o advento da ciência, o raciocínio lógico passou a ser cultuado. Mas é bom que se ressalte: esse tipo de inteligência, isolada, dificilmente fará alguém alçar vôos mais ambiciosos – a não ser que o objetivo seja seguir carreira como matemático ou analista de sistemas.

Veja – Existe, então, uma combinação de habilidades mais admirada no mercado de trabalho?

Gardner – A união do pensamento lógico à capacidade de lidar com as pessoas tem resultado em carreiras de sucesso nas grandes empresas. O que não dá é para interpretar esse tipo de constatação como uma espécie de fórmula para o êxito. Em minhas palestras, faço questão de enfatizar dois pontos aparentemente óbvios. Primeiro, afirmo que mesmo os profissionais mais brilhantes precisam ter como motor a ambição para crescer. Cheguei a uma conclusão intrigante sobre muitos deles: apesar do talento fora do comum, são pessoas que tendem a ficar acomodadas em suas áreas de interesse. Acabam se tornando superespecialistas, mas, ironicamente, não costumam deixar nenhuma marca no mundo das idéias. O segundo ponto é que às vezes os melhores não dão certo quando chegam ao topo de uma organização, porque a eles, também, falta alguma espécie de inteligência fundamental para exercer o cargo de liderança.

Veja – Qual a lacuna mais comum entre os vários tipos de chefe?

Gardner – A muitos deles falta uma capacidade essencial à liderança – a inteligência para detectar suas forças e fraquezas. Isso não ocorre com os líderes mais eficientes, que têm um cérebro moldado para entender o que considero básico: como qualquer outra pessoa, não sabem tudo, estão sujeitos a errar e, por essa razão, se cercam de gente melhor do que eles em áreas nas quais se saem pior. Os líderes menos eficazes, por sua vez, pecam pelo excesso de orgulho e pela cegueira sobre suas reais capacidades. O presidente americano George W. Bush é o melhor exemplo de ausência desse tipo de inteligência – a que me refiro como inteligência pessoal – e por isso é incapaz de produzir uma auto-avaliação mais realista. Bush também esbarra numa outra deficiência comum entre pessoas que ocupam função de liderança: a de não pensar nas grandes questões existenciais, mas ater-se somente aos problemas mais imediatos do dia-a-dia.

Veja – Essa é uma limitação e tanto.

Gardner – Sem dúvida. Sabe-se que, desde o tempo das cavernas, os homens apresentavam um cérebro capaz de imaginar o infinito e de considerar questões cosmológicas, muito além da preocupação com a própria sobrevivência. Vários dos líderes modernos, no entanto, não exibem essa capacidade. Eles têm dificuldade de pensar num espectro mais amplo. Está claro que as pessoas mais eficazes em cargos de comando são aquelas que conseguem despertar nos outros a sensação de que fazem parte de um projeto maior. É uma característica que separa os líderes que ficarão na história dos que logo serão descartados da memória coletiva. Dois bons exemplos são o indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) e Nelson Mandela (ex-presidente sul-africano). Adolf Hitler (1889-1945) e Mao Tsé-tung (1893-1976), ambos ditadores, respectivamente, na Alemanha e na China, alcançaram o mesmo efeito em suas platéias – sem ter feito, claro, o uso positivo de suas capacidades intelectuais.

Veja – A inteligência tem alguma relação com a moral?

Gardner – Definitivamente, não. As inteligências são moralmente neutras. Tome-se como exemplo a comparação entre Joseph Goebbels (1897-1945), o ministro da Propaganda de Hitler, e o poeta Goethe (1749-1832), ambos mestres no emprego da língua materna: o alemão. Em poder do mesmo tipo de inteligência, Goebbels disseminou o ódio e Goethe criou obras de arte. O estudo que fiz sobre os trinta personagens com atuação acima do comum em suas respectivas áreas, ao longo da história, ajuda a enfatizar a idéia da inteligência amoral. Tirando Gandhi, nenhuma das figuras por mim pesquisadas teve uma vida pessoal digna de ser classificada como exemplar. Pablo Picasso (pintor espanhol, 1881-1973), T.S. Eliot (poeta inglês, 1888-1965) e até Einstein, para citar alguns, lamentavelmente demonstraram insensibilidade moral em muitos aspectos da vida. Com base nesses argumentos, repito o que pode parecer óbvio: o principal desafio da humanidade não é apenas produzir um exército de pessoas com suas múltiplas inteligências afiadas – o maior avanço será vê-las usadas de forma mais ética.

Veja – O senhor acha que é viável contemplar as diferentes inteligências nas escolas?

Gardner – Concordo com meus adversários no campo acadêmico: é difícil transpor toda essa teoria à realidade das salas de aula. Ensinar as matérias de sete ou oito maneiras distintas seria uma tarefa para loucos, e não é isso que eu proponho. Mas acho que aplicar em sala de aula ao menos dois jeitos diferentes de ver um mesmo problema já terá sido um tremendo avanço em relação ao que se vê hoje no mundo todo: escolas atrasadas educando as crianças para o século passado. Com base em dezenas de viagens pelo mundo, afirmo que as escolas estão, no geral, cometendo o mesmo erro: elas ensinam as crianças a ler, escrever e usar o computador como um fim em si, quando essas são apenas ferramentas para aprofundar o conhecimento sobre temas mais relevantes.

Veja – Como é possível identificar oito tipos de inteligência se há apenas medidores para duas ou três delas?

Gardner – A neurociência já produziu um sólido conjunto de evidências para comprovar minha tese. Por meio da observação do cérebro em funcionamento, essas pesquisas revelam que a mente humana abriga, sim, capacidades intelectuais independentes entre si. É da combinação delas que surgem os mais diversos perfis de inteligência. Infelizmente, as sociedades modernas não assimilaram o que a ciência descortinou décadas atrás. Elas seguem com uma visão antiga – valorizam apenas os tipos de inteligência que podem ser medidos em testes de QI, como as habilidades para a matemática e a lingüística. Em relação às demais capacidades humanas que descrevo em meu trabalho, elas ainda são desprezadas pela maioria das pessoas.



Fonte: Revista Veja (25/07/2007)